Estava eu lamentando, sobre o por que na cidade onde moramos, Macapá, não se sabe quando foi que tivemos a felicidade de ouvir em nossos telhados, o barulhinho de gotas vindas do céu, onde em muitas das vezes sonhamos após adormecer ouvindo essas tão doces gotas? Então lembrei... Num desses dias enquanto procurava o sono e o desgraçado parecia estar lá pras bandas, sei lá da onde... Assisti um filme do qual gostei bastante, “A Dama na Água” (Lady In The Water). Porém, não será ele o tema desta crônica, e sim algo que disse um dos personagens, um crítico de cinema enfadado pela contemporaneidade da sétima arte. O morador do condomínio, onde a história se desenrola, alegou que não agüentava mais as cenas sob a batuta da chuva e o olhar do romantismo. Que não compreendia o porquê de tantos filmes brindarem a este encontro. Pensei comigo: “por que não?” Chuva tem tudo a ver com romantismo, principalmente quando se trata de cinema. Compreendo que nem todos os roteiristas e/ou diretores são felizes ao tentarem fazer com que a mágica aconteça, mas há chuvas e declarações de amor que são dignas de se tornarem cenas de cinema. Quem não se dá conta disso, certamente anda com o romantismo namorando a aridez. Mas quero mesmo é falar sobre a chuva como cenário biográfico. Quem me conhece, sabe que eu adoro dias de chuva; da garoa às tempestades. Como evitar se embebedar com a melodia dos telhados ou as cores das sombrinhas? Como deixar de perceber a melancolia, na dose certa, ao desembaçar o vidro do ônibus para ver o lá fora? Como ficar alheio à importância das chuvas para que os olhos dos rios transbordem amor, ternura, felicidade e nos traga fertilidade? Aprendi, ainda criança, que para amar é preciso aceitar o inteiro. Foi assim que perdi o medo da chuva, porque antes me apavoravam os relâmpagos que ela trazia; os trovões que a acompanhavam. Sem contar que, onde moro, às vezes ela é tida como inimiga, já que toda vez que cai, nossas casas ficam quase no fundo. Então, se estivermos na rua, temos de subir uma ladeirinha, escorregando na lama, e fazer uma bela caminhada para chegar em casa porque moramos as margens de um canal, numa cidade em que não se tem bueiros suficientes, para o escoamento da água que as chuvas nos trazem. Depois de um tempo, alguns anos na verdade, já que a prefeitura não resolveu nada até agora. O governo é quem vai amenizar, a situação do tão sonhado canal da Mendonça Júnior, ter sua glória de receber uma adaptação decente, para seus inúmeros admiradores que ali residem. O problema nunca foi da chuva, apesar de o Seu João xingá-la até! Não sei se era uma questão de culpa... Acho que estava mais para dificuldade de adaptação à demora da chegada da modernidade por parte de uma pessoa decente, que mora em nossa cidade e tem respeito pelo povo que o elegeu. Estou falando com convicção de um eleitor que tem paixão pela terra em que tira seu sustento e de sua família. Como ser humano trabalhador, tenho direito de reclamar, para o povo do meu Amapá, que na próxima eleição, possamos eleger um prefeito que tenha respeito e sensibilidade por sua cidade. Desta época, lembro mesmo é da minha mãe colocando latinha de leite em pó debaixo da calha pra ouvir a chuva gotejar forte e embalar o seu sono. Também do cheiro da terra molhada, principalmente quando chovia em dia de sol. E os banhos de chuva eram divertidos e libertadores. E foi então que a chuva veio cutucar meu coração. Eu que já a observava até nas noites mais frias, a aceitava em qualquer estação, jamais pensei que, num verão qualquer, ela derrubaria minhas barreiras. E apesar de ter desfrutado deste gostar mais na solidão de mim mesmo do que na companhia do meu afeto, posso dizer que valeu cada gota de chuva. Dizem que a chuva leva (lava?) os maus agouros... Também deságua emoções antes não mencionadas. O que posso dizer? Bolinho de chuva e café fresco, uma boa conversa, as lembranças decifradas debaixo do batuque da chuva nas telhas. Aprendi que para amar é preciso aceitar o inteiro. Então, também aceito chegar molhado no trabalho e ter uma goteira na janela da sala. Não aceito as ruas apinhadas de carros e seus endoidecidos donos, tampouco as enchentes e os deslizamentos. Não aceito as pessoas perderem suas casas e suas vidas, porque aí não se trata de uma obra da chuva, mas sim de uma transgressão do homem que se permite modernizar e crescer sem consciência. A culpa é minha. Sua. Nossa. Da chuva: não. Ela continua íntegra. Sabe o que mais? Saudade das chuvas passadas... Ansioso pelas que virão.
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