Seja lá como for, quero expressar meu sentimento, não como sendo um individuo egoísta que recorre aos apelos dos deuses para sufocar sentimentos que há poucos dias adentraram corações de quase cem mil macapaenses que resolveram mudar o conceito de suas vidas de agora em diante. Já em meados de novos tempos que com certeza virão, quero voltar a oito anos atrás e falar do que todos nós tivemos que enfrentar como verdadeiros “GUERREIROS TUCUJÚS” que somos. A Macapá que foi um dia, a que é agora e a que queremos que seja no futuro. Nossas ruas e avenidas, a centenas de dias, não sabem o que é limpeza, o que é asfalto e muito menos cuidado por parte de uma autoridade que foi escolhida pelo povo para governar seus arredores. O peso do sofrimento está esculpido no leito dos inocentes, que acreditaram que a mudança poderia ter acontecido, a partir do inicio do século XXI, quando centenas de pessoas foram às urnas para escolher o que seria, o novo e moderno comandante de uma população nortista, onde o sol nasce e brilha para todos, pelo menos no subconsciente de cada um que aqui resolve montar sua moradia essa espécie de útero feito de telhados e concretos, em que, em geral, nos sentimos protegidos. Na época, tínhamos a esperança de poder olhar para linha do equador e avistar o que nossos olhos gostariam de ver. “O tempo como tempo e não como TEMPESTADE”. Entrar pelas ruas de nossa querida Macapá há oito anos, produz ao recém-chegado, sensações ambíguas. Uma aparência de desolação que salta à primeira vi?ta. Não são detalhes. É a cidade mesmo. Casas mal construídas ao lado de casinhas mambembes, miúdas e ajambradas ao estilo popular, num perfil urbano desparelho e sem grandeza. Calçadas quebradas, paredes com pintura gasta, reboco lascado. A visão rápida da cidade resulta ruinosa e um tanto amontoada. Chegar à cidade, em tarde de inverno, com sol tênue, sem calor, entre nuvens cinzentas, fixa um ar de melancolia, completado por molduras de limo nas paredes e nos pisos das calçadas. Temos uma sensação pastosa em quase tudo que se olha. E um receio de insalubridade em qualquer coisa que se toque, ou até mesmo que se queira apalpar. A atmosfera nublada inspira nostalgia; fachadas enegrecidas e janelas estreitas permanentemente fechadas; esquadrias oxidadas e balouçantes. Em quase tudo, se percebe uma espécie de pós-guerra moral e material sem fim para poder sossegar. Por entre a bruma fria, o andejar de pedestres encolhidos, sem cobertura, mal agasalhados com casacos surrados e curtos, transmite desconforto e desequilíbrio emocional. No início da noite, por todo lugar, vê-se mover lentamente a névoa entre casas cinzentas, em atmosfera lúgubre, onde a violência assola por todas as ilhargas por onde quer que andemos, de dia ou de noite. A cerração, palavra preferida pelos locais, é habitual nas madrugadas de inverno. Ademais, pela manhã, a neblina densa demora a se esvair, deixando a sensação de que os dias amanhecem lerdos e sem vontade de oferecer conforto. Achar endereços é tarefa demorada, uma vez que as ruas não têm placas com nomes, não há mapas, as pessoas hesitam por longos segundos antes de transmitir informações - e o fazem sem convicção. A permanência na cidade – ainda que longa – a convivência nesse ambiente, ou a observação das suas peculiaridades nunca chega a uma compreensão completa. Talvez seja possível achar causas. Mesmo estas não parecem razoáveis. Nas tardes curtas de inverno, sombras longas, e a merencória visão de galhos finos e desgrenhados em poucas árvores desfolhadas. Nas poucas praças que restam visivelmente abandonadas, dominam as ervas daninhas, pasto alto e alguns cercados de grades tortas e enferrujadas, que endossam a sensação de abandono, por se poder distinguir que em alguma época foram praças públicas. Uma pasta de barro e areia grossa, com algo de capim pisoteado. Por aqui, é moda derrubar árvores, arrancar gramados e substituí-los por lajes cimentadas ou lajotas derrapantes. Isso deixa um aspecto “limpo”, mas ao mesmo tempo frio e impessoal, além de insalubre. Não escapa nem o canalete por onde desliza um córrego sem nome, agora coberto por uma laje empenada, que acumula água suja a servir de criatório de mosquitos Aedes Egipite transmissor da maldita dengue. Também é moda demolir casas para tentar, no mesmo lugar, erguer edifícios ou galerias de lojinhas minúsculas. É por causa dessas práticas, que hoje Macapá não tem memorial histórico. Se não fosse possível demolir, as casas eram deixadas sem manutenção, o que as transforma em ruínas. Em vários casos, quando demolidas, a falta de recursos – de que o demolidor só se dera conta depois – deixa dezenas de terrenos baldios, em completo desperdício, reforçando o abandono da cidade. Isso não lembra em nada uma suposta época de grandeza, de que davam pistas algumas fachadas portentosas de casarões agora desabitados, o próprio casebre com sua fachada mofada e uma infinidade de antiquários com preciosidades à venda. Daqui pra frente, esperamos nós, que a mudança logo virá... Jota Junior
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