Por mais que uma leva de pessoas tente me fazer acreditar que a humanidade não passa de uma crença desprovida de ciência e eficiência, uma doutrina baseada na utopia, eu não consigo pensar em um mundo dominado pela animosidade. Como acreditar nisso depois de aninhar nos braços uma criança, beijar na boca quem se ama, visitar a mãe, o pai, o filho, até o espírito santo? Ou mesmo o santo não-canonizado que oferece amizade e lealdade (e sem cobrar um centavo), estando presente na hora das baixarias familiares, das alegrias da paixão e os escorregos da ilusão? Por que a humanidade tem de ser marginalizada, despovoada não só da fé, mas também da capacidade de cada um de nós de não fechar os olhos na hora do tombo do outro, por acreditar que basta (e ser justo) chorar somente pela dor causada pelas próprias feridas? Individualistas. Creio que nada seja 'próprio' em um mundo onde se trocam vidas por propinas, e se enverga a espinha da sociedade para transformá-la em rua sem saída, na qual os poderosos — armados com a benção da injustiça — encostam à parede não só nossos filhos, mas também o futuro do nosso país... do mundo. Fuzilam e o que têm a perder? Nada. Eles têm apego não por gente, mas por aquilo que a 'gente' deles pode acumular em seus nomes: ouro, armas, trapaças e mortes. Violência, a diversão dos disformes por terem largado o coração em algum cativeiro. E eles adoram assinar a autoria do feito. Enquanto isso, alguns de nós se envergonham da condição de humanos, desses que tomam partido do alheio e as dores dos que se encontram em situação menos favorável; os que temem serem vetados por acreditarem que todos somos passíveis de nos darmos mal e é sempre bom poder contar com o outro, ainda que não haja parentesco ou laços de amizade. Não se trata de um estranho, mas de um ser humano com humanidade. Não é de milagres que a humanidade se alimenta, mas sim da consciência de que não há poder aplicado com verdadeira nobreza igual a este: o 'poder de ser humano'. E deixando a vergonha em casa, trancada em alguma caixa de pandora da qual possamos perder a chave e a lenda, para que assim o sorriso brote não só nas caras das crianças que tiveram a sorte de ter famílias que delas cuidam, mas também daquelas que tememos todas as vezes que paramos em algum farol. Tememos não só o que trazem nas mãos ou o fato de andarem aos bandos, mas também a idéia de não podermos cuidar delas, esta certeza injusta que condena à miserável condição de abandonados aqueles que têm o nosso sobrenome: pessoa. Não adianta dar trabalho a Deus ao continuarmos questionando eternamente os motivos de estarmos no meio deste risca-faca. Não está nas mãos dos políticos a qualificação da essência das nossas almas e ideais. A solução não está nos programas de televisão, na invenção de armas cada vez mais poderosas ou seitas rigorosamente legisladas por fundamentos que a maioria não compreende, mas os segue — cegamente — a ser açoitada pela persuasão de 'mestres' nesta arte, e pela sensação de segurança que permeia qualquer promessa. Meu sobrinho de oito anos deitou no meu colo e me contou uma história inventada, mas na qual certamente ele acredita (e eu também). Ele disse que nasceu uma heroína que enriqueceu muito, "os bolsos cheios de dinheiro, tio!", e ela gastou este dinheiro comprando cestas básicas para todas as famílias que passavam fome neste mundo. "Ela é gente boa, tio, e ainda por cima sai do coração dela uma luz branca, branca, que invade a terra e leva embora toda a maldade. E ela fala com as flores, cura a alma dos homens, fala com os pobres e mendigos, com gente bem-vestida, fala com todo mundo! E é alegre, tio! Mas quando fica triste, não maltrata as pessoas". O Glauber (meu sobrinho) pode não saber, mas ele conseguiu traduzir nesta história a única heroína capaz de nos fazer bem, de nos libertar do medo, da violência e da injustiça: a humanidade. Ela que não é utopia e já nos mandou tantos para representá-la e quase sempre fechamos os olhos, enquanto mete-se bala neles! A humanidade que não é religião, não julga e não destrata. Apenas fica dentro de cada um de nós, esperando o momento em que decidirmos arrancá-la de lá e entregá-la ao nosso cotidiano, simplificando problemas e querendo bem, porque querer bem é para todos, não para alguns. Ainda que ela comece a surgir assim, aos poucos.
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